quinta-feira, 25 de março de 2010

Outro momento importante, no Cristianismo, me parece, para os discursos sobre o suicídio, foi o "O evangelho segundo o Espiritismo", de Allan Kardec. Muitos séculos depois de Dante Alighieri, em 1863, o famoso evangelho, basilar para o entendimento do espiritismo especialmente kadecista, é publicado.
Merece muito mais atenção do que daremos hoje. Por isso é que, certamente, voltaremos a ele em outras semanas.
Por ora, vamos ficar com uma prece apenas:
"72 – Prece – Sabemos qual a sorte que espera os que violam a vossa lei, Senhor, para abreviar voluntariamente os seus dias! Mas sabemos também que a vossa misericórdia é infinita. Estendei-a sobre o Espírito de Fulano, Senhor! E possam as nossas preces e a vossa comiseração abrandar as amarguras dos sofrimentos que suporta, por não ter tido a coragem de esperar o fim das suas provas! Bons Espíritos, cuja missão é assistir os infelizes, tomai-o sob a vossa proteção; inspirai-lhe o remorso pela falta cometida, e que a vossa assistência lhe dê a força de enfrentar com mais resignação às novas provas que terá de sofrer, para repará-la. Afastai dele os maus Espíritos, que poderiam levá-lo novamente ao mal, prolongando os seus sofrimentos, ao fazê-lo perder o fruto das novas experiências. E a ti, cuja desgraça provoca as nossas preces, que possa a nossa comiseração adoçar a tua amargura, fazendo nascer em teu coração a esperança de um futuro melhor!. Esse futuro está nas vossas próprias mãos: confia na bondade de Deus, que espera sempre por todos os que se arrependem, e só é severo para os de coração empedernido." (tradução de José Herculano Pires)
Fragmentariamente, pois que não há tempo para a costura hoje:
Aos suicidas, pede-se a misericórdia divina. Como se os suicidas quisessem a misericórdia de alguém. Como, aliás, se a misericórdia não fosse lamentável. E é.
Suicidas são considerados infelizes. E são?
Suicidas são considerados covardes por não terem esperado até o fim dos dias. A isto, teremos demais de voltar. Aqui, vejo uma inversão completa à concepção grega de coragem. Mas, enfim, será que é mesmo coragem esperar até o fim dos dias? Será que é mesmo falta de coragem enfrentar a floresta dantesca? Sei não...
Aos suicidas, remorso. Credo! Dispenso. Está em causa, aqui, a má consciência. Só faz mal.
Por fim, esperança no futuro. O Cristianismo e o futuro redentor. O Cristianismo não sozinho nem puro. Pelo contrário, distorcido, retorcido, reinventado, apropriado, despropriado. O Cristianismo e o espírito do que chamamos sem cuidado capitalismo. O Cristianismo entranhado, incutido nos não-cristãos, inclusive. O Cristianismo e o pavor, e os apavorados. O Cristianismo e a má consciência. O Cristianismo e o Paulo Freire. O Cristianismo e a moral. O Cristianismo e o eu. O Cristianismo e a vida indigna, indigníssima.
Antes do tchau: a imensa maioria das condutas pôde ser conduzida pelas penalidades terrenas, pelos castigos terrenos, pelo julgamento moral terreno. Mas como julgar, penalizar, castigar terrenamente os suicidas? Esses desviados, livres e escapos...

2 comentários:

Jonatas disse...

Vc e seu espírito livre e libertino! rs

biel madeira disse...

ai, caramba! gostei muito deste... muito mesmo! Principalmente da parte do cristianismo e o Paulo Freire, hehehe!

bjão!